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Liu – Meu nome é Lincoln Paulino da Costa, nascido em Itajobi-SP, no ano de 1934. Fomos criados na roça, cantano e dançano catira. Nosso pai era sempre chamado pros catira, pras festa da região e nóis participava. O Léu, desde os cinco ano de idade já cantava, junto com o Benedito, nosso irmão mais velho. Naquela época, nossa casa era sempre cheia de gente que vinha da cidade pra ouvi: “Vamo pra casa do Gabriel Cunha, vê a rapaziada cantá...”
VC – A família toda cantava e dançava catira?
Liu – Vinha o pai do Vieira e Vieirinha, nosso tio. O Vieira e Vieirinha já cantava com nóis desde muito cedo. Nóis formava um grupo de catira muito grande, todo mundo cantava, dançava, tocava viola... Aí foi até que o Vieira e Vieirinha foro pra São Paulo. Depois foro busca o Zeca pra cantá com o Zé Carrêro – na ocasião em que o Carreirinho tinha separado dele. Nessa época, eu e o Léu tava terminano uma “forma de café” que nosso pai tinha pegado. Quando nóis terminô, nosso pai resolveu ir pra cidade. Daí fomo pra Catanduva-SP.
VC – Quando vocês foram pra São Paulo?
Liu – Eu consegui um serviço na Mercantil Suíça e fui com o Léu pra capital (era pra consegui serviço lá, pra ele também). O Léu pode falá dessa época, que ele tem memória melhor que a minha.
VC – Então Léu, conta um pouco da sua história pra gente!
Léu – Pois é... meu nome é Walter Paulino da Costa e nasci no dia dois de abril de 1937, também em Itajobi-SP. Minha história é a mesma do Liu, que ele já contô pra você.
VC – Mas você começou cedo na viola caipira, cantando?
Léu – Acho que já vem de Deus... ta no sangue, sei lá... Nosso pai tinha lá na roça um caixão de madêra, onde ele guardava arroz. Era mais ou meno dois metro de comprimento por meio de largura e uns dois e meio de altura. Cabia uns trinta saco de arroz. Quando o arroz ia ficando pelo meio, a gente entrava dentro do caixão, e ali era nossa rádio.
VC – Como assim?
Léu – A gente entrava e cantava lá dentro. A gente fechava a tampa...
Liu – Tinha um som gostoso! Nosso estúdio era em cima do arroz.
Léu – E por incrível que pareça, minha mãe e meu pai ficava ouvindo e admirando a gente ali. Eles devia pensa: “Como eles aprendero a cantá?”, né.
Liu – A gente já fazia “primêra” e “segunda”, desde de menino. A gente brincava de cantá, era a nossa diversão de menino.
Léu – Acho que naquela época nem rádio a gente num conhecia e nem fazia idéia do que era estúdio. Aquilo era só brincadêra nossa, mesmo. Nóis cantava horas lá dentro.
VC – O Zico nos contou que o pai de vocês tinha o maior ciúme da viola. Como você, Léu, conquistou a confiança dele?
Léu – Na verdade, quando eu fui pega mesmo a viola pra aprende direito, eu já tinha uns quinze, dezesseis ano. O Zico e o Zeca já tinha ido pra São Paulo. Então, já tava mais tranqüilo. A faze do ciúme da viola foi bem antes.
Liu – Na verdade o pai num tinha só ciúme da viola. É que o Zico num podia pegá nada, que ele quebrava. (gargalhada!)
VC – O sucesso dos irmãos e dos primos, de alguma forma facilitou pra vocês?
Léu – Facilitô sim. Em 1957, em São Paulo, o Zico e Zeca já era sucesso. O

Vieira e Vieirinha... Eles já tinha nome e, sem dúvida, facilitô a coisa pra gente.
VC – Mas, ganhar o público já é uma outra história...
Léu – Chega é uma coisa, conquistá é diferente. Sê irmão do Pelé é uma coisa, agora, joga bola que nem ele...
Liu – Aí já é o lado de Deus: “esses menino... tenho que dá uma mãozinha pra eles...” (risos)
VC – A aceitação da dupla foi imediata?
Léu – Então... em 1957, nós terminamo a empreitada do café e fomo pra cidade. Através do Zico e Zeca, a gente já conhecia muita gente, O próprio Teddy Vieira já tinha ido na nossa casa, lá na roça. O Biguá também, o Tião Vitor, o Motinha... Sem dúvida que isso ajudou muito a gente, mas na realidade, quando nóis fomo pra São Paulo, o intuito nosso num era cantá. Nóis fomo pra capital pra trabaiá.
VC – Mas como foi o primeiro contato com a música, na capital?
Léu – Como a gente já conhecia algumas pessoas do meio, foi mais fácil. Era aniversário do programa “Brasil Caboclo”, na rádio Bandeirantes, e nóis fomo assisti. A festa continuô, depois do programa, que era ao vivo e com auditório, desde às cinco e meia da manhã. Resolveram pedi pra nóis cantá: “Ah, os irmãos do Zico e Zeca ta aí...” E nóis, na realidade, nem era dupla. Nóis cantava assim, de farra. Nóis nunca tinha ensaiado. Acabamo cantano uma música lá, “O Meu Ranchinho”. Pegamo os instrumento do Zilo e Zalo emprestado e o pessoal gosto.
Liu – O Capitão Barduíno até que num tava quereno muito que nóis cantasse, porque o Zico e Zeca tinha saído da Rádio Bandeirantes e ido pra Rádio Nacional, e ele tava meio brabo com aquilo.
Léu – Mas aí o Biguá, o Zacarias, o Generoso, o Muibo Cury, foro lá e convencero ele. Daí o Zacarias marcô o dia pra nóis estréia no rádio, no programa dele, “Novidade Sertaneja”. Marcô pro dia cinco de novembro de 1957. Foi então que nóis fomo compra uma viola e um violão, que nóis num tinha nada. (risadas)
VC – Agora era sério!
Léu – É aí nóis fomo ensaia umas moda pra estreiá na rádio. A partir daí...
VC – Nessa época, o rádio tinha uma força maior na divulgação do artista. Era ele quem lançava os artistas.
Léu – É, as dupla fazia seus programa diário. Cada um tinha seu dia, sua hora. Mais, nóis cantava era um dia, depois pulava dois. O que acontecia: a gente ia lá, cantava na rádio, e já começava a viaja, ir pra circo... Os ouvinte é que dava fama pro artista. Daí, então, é que vinha os interesse das gravadora.
VC – Como era o contato das gravadoras com as duplas?
Léu – Os viajante das gravadora visitava as loja e os vendedor falava pra eles qual música de qual dupla que o público queria ouvi. Era o lojista quem dava as dica. Às veiz ninguém conhecia direito a dupla, então a gravadora ia atáis pra gravá.
VC – E como era a gravação?
Léu – Agente entrava tudo junto no estúdio e gravava direto, tocano e cantano. Quando nóis gravamo, em 1959, o “Rei do Café”, quem toco viola pra gente no estúdio, foi o próprio Teddy Vieira. Em “Boiadeiro Errante”, foi o Florêncio.
VC – Como foi a aceitação desses primeiros discos, pelo público?
Léu – Se fosse hoje, por exemplo, “Boiadeiro Errante”, só com os direito de execussão, já dava uma ajeitadinha na vida da gente. (risos)
VC – Vocês sempre tiveram o cuidado de escolher bem o repertório dos seus discos. Só tem música boa!
Léu – Eu tenho a impressão que é porque nóis nunca tivemos interferência de gravadora na hora de escolhê o que a gente ia cantá. Eu acho que é por isso. (pausa para um cafezinho preparado pelo Liu)
VC – “O Ipê e o Prisioneiro” tem uma importância extra na carreira de vocês. Como foi isso?

Léu – Tem... tem sim. Depois de um certo tempo sem cantá, a gente deu uma sorte de gravá uma música como “O ipê e o Prisionêro”, que se tornô, vamo dizer assim, um hino, né. Já são vinte e três anos de sucesso dessa música. Ela deu uma alavancada na nossa carrêra, de novo.
VC – Quando surgiu a televisão, ela interferiu na carreira dos artistas de rádio?
Léu – É, tirô muito ouvinte do rádio. Mas foi uma evolução necessária. Com a chegada da televisão, acabo o circo. E fecho muito cinema, também.
VC – Quantos discos a dupla gravou?
Léu – Foro oito 78 rpm e 31 Lps. Teve uns compacto também. As gravadora usava o compacto pra trabalhá as música que elas queria que tocasse nas rádio. Nóis começamo na Chantecler e depois fomo pra Continental. Mas passamo por outras gravadora, também.
VC – E a gravadora de vocês, a “Tocantins”?
Léu – Foi uma idéia muito boa, pena que acabou não acontecendo o que a gente pensou. A idéia era formar um grupo de pelo menos seis dupla de nome e lança uma gravadora, porque aí, a gente já saía forte, né. Mas num virô! Aí, nóis lançamo nóis mesmo, em 1978, com o Roberto Calçada, o Dino Franco, eu e o Liu. Lançamo o selo. Mas o Calçada tava com um probleminha de saúde e saiu. O Dino ainda fico mais um tempo com agente, mais saiu também. Nóis lutamo muito pro Dino ficá, porque nóis precisava dele. Ele tinha uma certa experiência de produção, além da pessoa que ele é, a amizade nossa. Mas nóis tocamo em frente. Demo sorte, porque logo gravamo a música “Sementinha”, que estorô (isso foi em 1981, logo nos primêro Lps da Tocantins). Durante 13 ano nóis ficamo com a gravadora.
VC – Vocês tiveram uma indicação para o prêmio internacional “Grammy”?
Léu – É, foi com o CD “jeitão de Caboclo”. Nóis fizemo esse trabalho lá na gravadora Atração, com produção do Mário Campanha. Pra nóis foi surpresa porque, quando foi um belo dia, o telefone toco e era o pessoal da atração falano que o CD tinha sido apontado pro prêmio. Ficamo muito feliz, porque depois de tanto tempo de estrada... É um reconhecimento do nosso trabalho!
VC – A dupla Zico e Zeca chegou a ter avião na década de 50. Vocês chegaram a viajar com eles?
Léu – Certa vez eles emprestaro o avião pra nóis faze um show em Ribeirão Vermelho, no Vale do Ribeira. Nóis descemo em Itararé, que lá num tinha campo.
Liu – O povo era muito atrasado. Pra eles avião era um fenômeno. Quando nóis chegamo, o Miro, que era o piloto, deu uns rasante na cidade, assim por cima do circo, pra mostra que nóis tava chegano. Mas o resultado foi o contrário. O pessoal da cidade fugiu tudo pro mato, achano que era guerra, e quando foi de noite, num apareceu ninguém pra vê o show. (gargalhada).
Léu – Sumiu tudo na capoêra. Isso foi em setenta e poucos.
VC – Como vocês estão vendo o cenário atual da viola caipira?
Léu- A viola ando meio sumida por uns tempo. Cê sabe que o caipira é meio inibido, né. Se alguém começa a fazê muito barulho, ele fica de lado, meio acanhado. Isso foi quando apareceu um pessoal mais novo aí, seguino um caminho paralelo. Mas foi acalmano e a viola ganho força de novo.
Liu – Hoje a gente tá veno uma porcentagem boa de jovens cantano e tocano viola, gostano de música raiz. A gente fica muito feliz com tudo isso!
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Em julho estivemos em Ibiraci-MG, o Danilo Bayão e eu, na residência do Liu, para fazermos uma entrevista com uma das mais afinadas e famosas duplas do Brasil: Liu e Léu.
            Lá chegando, fomos recebidos por um “comitê” de primeiríssima qualidade: além da dupla, D. Mariza, esposa do Liu, o Zico, o Luiz Faria, o Gonzáles, o Joãozinho e o Fioravante. Dali, fomos levados para um sítio de propriedade de cumpadre Dante, em Franca-SP, onde radialistas, violeiros e apreciadores da boa moda de viola da região nos aguardavam com uma bela festa de boas vindas.
            De noite, já de volta à residência do Liu, gravamos uma entrevista descontraída com a dupla:
Por Pinho
Entrevista feita pela Revista Viola Caipira 2006 - N° 15
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